Conferir mensagens e e-mails logo ao acordar costuma ser um impulso automático - uma olhada rápida antes de o dia começar.
Para um pequeno grupo de pessoas, porém, isso tem outro peso: vira um ritual indispensável para descobrir o que de fato aconteceu na noite anterior e o que foi apenas sonho.
É esse tipo de esgotamento que um novo estudo tenta retratar.
Em clínicas especializadas em sono, quatro adultos relataram, noite após noite, sonhos implacáveis, com nitidez de “filme” e tão imersivos que acabavam deixando lembranças com aparência de realidade.
Os pesquisadores defendem que esse quadro merece um diagnóstico próprio. Segundo eles, não se trata simplesmente de “sonhar muito” ou de um sonho profundo.
“Sonho épico” (epic dreaming), também chamado de hiperonirismo
Apesar de pouca gente conhecer o termo, médicos já dão nome ao fenômeno: “sonho épico” (epic dreaming), também conhecido como hiperonirismo.
Nessa experiência, os sonhos se estendem pela noite inteira, cena após cena, e a pessoa desperta “espremida”, exausta, em vez de restaurada.
A pesquisa foi liderada pelo professor Pierre A. Geoffroy, psiquiatra e pesquisador do sono da Paris Cité University, na França.
Ele e a equipa acompanharam quatro adultos que procuraram atendimento com essa queixa específica, avaliados em clínicas especializadas em sono ou em psiquiatria.
Os autores chamam de “transbordamento de sonhos” o que descrevem como o enorme volume de conteúdo onírico: a pessoa se deita e acorda com a sensação de que não “desligou” em nenhum momento.
Não é um pesadelo típico
Seria fácil encaixar isso na categoria de pesadelos, mas quem vive com o problema costuma discordar.
Em geral, os sonhos não são assustadores. Em vez disso, aparecem como sequências incessantes, aborrecidas e repetitivas, das quais o sonhador não consegue escapar.
No pesadelo, o medo é central e muitas vezes a pessoa acorda por causa dele. Nos sonhos épicos, raramente acontece uma coisa ou outra. O conteúdo pode ser banal - uma longa sucessão de tarefas, recados e rotinas - e ainda assim o corpo desperta como se tivesse trabalhado até não aguentar mais.
Essa diferença é essencial para o estudo. Os pacientes insistem que o cansaço é real, mesmo quando, ao narrar, os sonhos parecem pouco relevantes. São sonhos cansativos, não aterrorizantes.
Hiperonirismo e problemas de memória
Há um segundo elemento que diferencia o quadro - e, para muitos, ele é ainda mais inquietante do que a fadiga.
Os sonhos não ficam restritos à noite. Eles “invadem” o dia como memórias tão vívidas que a pessoa nem sempre consegue separar o que aconteceu de verdade do que foi sonhado.
Uma participante, mulher de 38 anos, descreveu sonhos que deixavam uma marca tão persistente que ela podia “confundi-los com memórias reais”, como se de facto os tivesse vivido.
Outros relataram passar anos a verificar mensagens e e-mails todas as manhãs para organizar o que foi real.
Ainda não está claro por que isso ocorre. Um modelo recente sugere que, em alguns momentos, o cérebro adormecido não consegue assinalar as próprias criações como imaginárias, permitindo que cenas sonhadas se misturem às memórias reais. É uma hipótese - não um mecanismo comprovado.
Muitas perguntas ainda ficam em aberto
Seria razoável esperar que a causa aparecesse nos exames laboratoriais. Sonhos vívidos costumam estar associados ao sono REM (movimento rápido dos olhos), fase em que o cérebro está mais activo e os sonhos tendem a ficar intensos. Por isso, esse seria o ponto mais óbvio para procurar.
Só que os registos apontaram noutra direcção. Nos quatro casos, os estudos de sono durante a noite foram, em grande parte, normais, com sono REM dentro do esperado ou até ligeiramente reduzido.
Décadas de investigação ligam os sonhos mais vívidos a essa fase, o que torna os resultados comuns ainda mais estranhos.
Por enquanto, o laboratório não consegue explicar a experiência. Os pesquisadores suspeitam que o problema esteja na forma como o cérebro transita entre dormir e acordar e em uma actividade mental que permanece “ligada” durante a noite.
Ainda assim, isso permanece no campo da suspeita. A causa continua desconhecida.
Dar nome a um transtorno real
Nada disso é completamente novo. Nos anos 1990, pesquisadores do sono já descreviam relatos de sonhos incessantes ao longo de toda a noite acompanhados de fadiga no dia seguinte, e mais casos foram registados em Taiwan no início dos anos 2000.
Um estudo anterior com pacientes desse tipo encontrou a mesma combinação incomum - noites exaustivas, testes de sono sem alterações importantes - e observou o quadro com muito mais frequência em mulheres. Mesmo assim, o tema ficou como uma curiosidade, sem uma definição formal.
O que faltava ao campo era justamente um conceito claro, e foi isso que a equipa de Geoffroy procurou estabelecer. Durante a noite, o sonho constante e vívido domina.
Pela manhã, instala-se o que eles chamam de sono não restaurador - o corpo não se sente descansado, e logo surgem fadiga e dificuldade de concentração.
Muitos desses pacientes também convivem com depressão, ansiedade ou insónia, mas, segundo os autores, essas condições não explicam completamente o padrão de sonhos.
Ao nomear o hiperonirismo, os pesquisadores dão ao fenómeno um lugar próprio, numa zona de fronteira entre a medicina do sono e a psiquiatria. Não é exactamente um transtorno do sono, nem exactamente um transtorno psiquiátrico.
O reconhecimento pode mudar o cuidado
Para quem ouve que noites exaustivas não passam de “sonhos vívidos”, o estudo oferece algo mais concreto.
Ele coloca um nome nessa vivência e descreve como identificá-la. Assim, a fadiga passa a ser um sinal clínico real - e não uma queixa a ser descartada.
Na prática, isso pode alterar a forma como médicos lidam com esses casos.
Em vez de encaixá-los automaticamente em insónia ou pesadelos, profissionais passam a ter uma categoria a que recorrer - e os pacientes ganham palavras para explicar o que estão a atravessar. Em geral, o reconhecimento vem antes de qualquer tratamento efectivo.
O estudo também dá aos pesquisadores um alvo mais definido. Com uma descrição consensual, torna-se possível investigar o que alimenta esses sonhos e testar se algo os alivia.
Uma queixa durante muito tempo tratada como trivial finalmente ganha definição - e um motivo para levar a sério quem acorda exausto por causa dos próprios sonhos.
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