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Revisão na The Lancet sobre vacinas de mRNA e COVID-19: segurança e eficácia

Jovem com curativo no braço após vacinação, enquanto profissional de saúde segura frasco de vacina em sala de espera.

As vacinas mudaram muito desde aquelas picadas desconfortáveis no consultório do pediatra. Agora, uma das maiores revisões já feitas sobre vacinas de mRNA foi publicada na The Lancet.

Para chegar a uma resposta clara, os autores reuniram evidências provenientes de bilhões de doses aplicadas e enfrentaram a pergunta que acompanha essas vacinas desde 2020: elas são seguras e, na prática, funcionam?

O trabalho é assinado por um grupo liderado por pesquisadores da University of British Columbia (UBC) e vai além de avaliar apenas as doses contra a COVID-19 como se fossem um caso isolado.

Em vez disso, a revisão acompanha toda a trajetória científica das vacinas de mRNA - desde experimentos de bancada até dados do mundo real coletados em escala nacional.

É difícil exagerar o tamanho dessa base de evidências: são bilhões de doses acompanhadas em populações variadas, incluindo crianças, gestantes e pessoas com imunidade comprometida.

Como as vacinas de mRNA funcionam no corpo

Um ponto costuma se perder nas discussões da internet: vacinas de mRNA não entram em contato com o seu DNA.

Elas levam às células instruções temporárias para produzir uma parte inofensiva de um vírus.

Ao identificar essa parte, o sistema imunológico aprende a reconhecê-la - e, em seguida, essas instruções se degradam e deixam de existir.

Essa degradação ocorre rapidamente. Em algumas pessoas, traços de mRNA ainda podem ser detectados no plasma por até 14 dias, mas a eliminação completa do organismo, em geral, se conclui em 1 a 2 semanas.

O risco de efeitos colaterais

Toda vacina pode causar reações, e com as vacinas de mRNA não é diferente. Para a maioria, o que aparece é dor no braço, alguma fadiga e, às vezes, dor de cabeça que passa em 1 ou 2 dias.

Os eventos mais raros são os que ganham destaque - e, de fato, são incomuns.

Miocardite e pericardite, dois tipos de inflamação do coração, foram observadas com maior frequência após a segunda dose, em aproximadamente 12.6 casos por milhão para a vacina da Pfizer BioNTech e cerca de 35.6 casos por milhão para a da Moderna.

Esses valores podem assustar quando vistos isoladamente. Porém, a comparação com a alternativa muda o quadro.

De acordo com os autores, contrair a própria COVID-19 envolve um risco significativamente mais alto de inflamação cardíaca do mesmo tipo, especialmente em homens jovens - ou seja, deixar de se vacinar não elimina o risco.

Anafilaxia, uma reação alérgica grave, apareceu em cerca de 4.7 casos por milhão de doses com a vacina da Pfizer. Já a síndrome de Guillain-Barré, um distúrbio neurológico raro, foi associada à vacina da AstraZeneca em 38 casos por milhão.

Eficácia das vacinas de mRNA

É na eficácia que as vacinas de mRNA consolidaram sua reputação. Considerando dezenas de estudos, elas ficaram em torno de 87% de efetividade para evitar qualquer infecção documentada.

Na prevenção de hospitalizações, a efetividade subiu para 93%. Para mortes, chegou a 94%, com medição entre 14 e 42 dias após a vacinação.

Com o tempo, essa proteção diminuiu, sobretudo frente à linhagem Omicron, caindo para 67% contra infecção e 72% contra hospitalização.

As doses de reforço recuperaram boa parte dessa proteção, o que ajuda a explicar por que o debate sobre reforço anual deve continuar.

Lições da COVID-19

“Nosso levantamento abrangente oferece evidências convincentes confirmando que as vacinas de mRNA aprovadas são seguras e altamente eficazes”, disse a Dra. Anna Blakney, da University of British Columbia.

“Ao longo da pandemia de COVID-19, as vacinas de mRNA mostraram o que uma colaboração rápida e guiada pela ciência pode alcançar ao oferecer proteção segura e eficaz em uma escala sem precedentes.

A pandemia de COVID-19 também deixou claro que vacinas de mRNA exigem mais do que produção veloz. Para proteger comunidades, elas dependem de monitoramento robusto de segurança, comunicação pública clara e dados contínuos do mundo real.

Novos usos além da COVID-19

A COVID-19 foi, na prática, um grande teste de validação. A mesma plataforma de mRNA agora está sendo avaliada contra influenza, RSV e outras doenças infecciosas que há anos resistem às vacinas tradicionais.

Na pesquisa oncológica, o tema fica ainda mais relevante. Vacinas personalizadas de mRNA, adaptadas ao tumor específico de cada paciente, já apresentam sinais iniciais promissores, junto de outras terapias baseadas em RNA voltadas a condições autoimunes.

“À medida que o mundo continua a enfrentar ameaças infecciosas em evolução, nossa revisão destaca a necessidade de inovação sustentada, vigilância robusta e colaboração global verdadeira para maximizar os benefícios de salvar vidas dessa tecnologia revolucionária”, disse o Dr. Manish Sadarangani, do Instituto de Pesquisa do BC Children’s Hospital.

“As vacinas de mRNA já transformaram a forma como respondemos a doenças emergentes e, com inovação contínua e monitoramento rigoroso de segurança, podem impulsionar avanços na medicina preventiva e no tratamento do câncer por muitos anos.”

O problema do acesso global

Vacinas de mRNA só cumprem seu papel se o mundo conseguir distribuí-las de fato.

As primeiras versões exigiam armazenamento ultrafrio, o que tornava a entrega quase inviável em muitas regiões.

Formulações mais recentes suportam temperaturas mais altas, o que ajuda, mas os custos de produção ainda são várias vezes maiores do que os de tipos mais antigos de vacina.

“Expandir a capacidade de fabricação e garantir acesso equitativo em países de baixa e média renda é essencial para que as vacinas de mRNA cumpram sua promessa como um bem público global”, disse o Dr. Robin Shattock, do Imperial College London.

“Ao investir em transferência de tecnologia, produção local e sistemas regulatórios robustos, podemos encurtar cadeias de suprimento, reduzir custos e assegurar que pessoas em todos os lugares se beneficiem de vacinas seguras e eficazes além das pandemias.”

Reconstruindo a confiança do público

Pouco disso adianta se as pessoas não confiarem nos dados.

A revisão destaca que a confiança em vacinas caiu em 94% dos países pesquisados durante a pandemia - um número que diz tanto sobre psicologia humana quanto sobre as próprias vacinas.

A desinformação se espalhou mais rápido do que a ciência conseguiu acompanhar, e essa diferença ainda não foi totalmente reduzida.

Para os autores, fechar essa lacuna pede paciência, e não postura defensiva: é preciso conversar com quem está hesitante oferecendo respostas claras, em vez de descartar preocupações.

A tecnologia de mRNA ainda está em evolução - e o nosso entendimento também. O que esta revisão deixa nítido é que, após bilhões de doses e anos de acompanhamento atento, os pilares se sustentam: proteção real, riscos raros e bem documentados, e uma plataforma com muito mais a oferecer do que apenas as vacinas de uma única pandemia.

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