Suplementos de cálcio e vitamina D ocupam lugar cativo em armários de remédios no mundo todo, tomados diariamente por milhões de pessoas mais velhas que querem preservar a força dos ossos e evitar fraturas. Uma grande revisão de 69 ensaios clínicos concluiu que, para a maioria, esses comprimidos quase não oferecem proteção contra ossos quebrados ou quedas.
Esses suplementos são indicados há décadas e movimentam bilhões de dólares por ano nos Estados Unidos e na Europa. Ainda assim, entre idosos saudáveis que vivem em casa, eles parecem proteger muito pouco contra fraturas ou quedas. Já programas de exercício voltados a equilíbrio e força reduzem quedas de forma bem mais eficaz.
Décadas de recomendação padrão
Essa dupla não virou padrão por acaso. Cálcio e vitamina D participam da formação e da manutenção óssea, e médicos passaram a recomendá-los amplamente depois que estudos iniciais sugeriram que a combinação poderia evitar as fraturas que levam muitos idosos ao hospital.
Para verificar se essa orientação ainda se sustenta, Olivier Massé, farmacêutico clínico, liderou uma revisão com investigadores de farmácia da Universidade de Montreal (UdeM). O grupo foi atrás de praticamente todos os ensaios já realizados sobre o tema.
No fim, reuniram 69 estudos que acompanharam mais de 150.000 adultos - em sua maioria vivendo em casa e sem risco especial de fratura. Foi o conjunto de evidências mais amplo até agora sobre esses suplementos.
Comprimidos com pouco retorno
O resultado foi direto. Considerando fraturas de todos os tipos e também quedas, cálcio, vitamina D, ou ambos juntos, quase não reduziram o risco.
Quando usada sozinha, a vitamina D não mostrou efeito relevante nem sobre fraturas nem sobre quedas. Os autores consideraram o achado suficientemente sólido a ponto de novos ensaios dificilmente mudarem essa conclusão.
O cálcio isolado tampouco se saiu melhor. Surgiu apenas uma curiosidade: um leve sinal de aumento de fraturas de quadril entre quem tomava cálcio. Como o indício era fraco e não fazia muito sentido do ponto de vista biológico, a equipa tratou-o como ruído.
Um efeito apoiado num único ensaio
Foi na combinação que a análise ficou mais interessante. Nos cálculos iniciais, cálcio e vitamina D juntos pareciam reduzir fraturas em pequena medida, e a diferença aparentava ser real - a única “vitória” do levantamento.
Então os investigadores fizeram um teste simples: retiraram um único ensaio antigo da conta e viram o suposto benefício desaparecer. Aquele estudo dos anos 1990 tinha avaliado mulheres frágeis, com média de 84 anos, todas vivendo em instituições de cuidados.
Essas mulheres começaram com vitamina D muito baixa e consumiam pouco cálcio na dieta. É provável que os ossos já estivessem amolecidos e mal nutridos. Para um grupo assim, oferecer suplementação reduz fraturas.
Mas, ao excluir esse mesmo grupo, o benefício para os demais cai para um nível abaixo do que um médico chamaria de clinicamente relevante. Nenhuma revisão anterior tinha deixado tão claro que o único ponto positivo dependia de um ensaio atípico.
Medindo o ganho real
Mesmo mantendo o estudo antigo na análise, o efeito foi mínimo. Ao tratar 100 pessoas com o comprimido combinado, evita-se cerca de uma fratura. Para prevenir uma única fratura de quadril, seriam necessárias mais de 300 pessoas.
Esses números ficaram bem abaixo do patamar que a equipa havia definido antecipadamente como “valer a pena”. O critério foi estabelecido antes de analisar os dados, em parte para manter a honestidade sobre o que realmente faria diferença para um paciente.
Assim, o único resultado que parecia significativo acabou sendo quase irrelevante na prática. Um efeito pode ser verdadeiro e, ao mesmo tempo, trivial - e aqui aconteceu exatamente isso.
Por que a orientação se manteve
Vários fatores ajudaram a manter a recomendação. Um deles foi o timing: os resultados iniciais, mais animadores, vieram primeiro, e as diretrizes foram publicadas quando o otimismo ainda era alto.
Outro tipo de evidência também apontava na mesma direção. Pessoas com baixos níveis de vitamina D e cálcio tendem a ter ossos mais frágeis, o que faz a suplementação parecer uma solução óbvia. Só que corrigir a “lacuna” não entregou o benefício esperado.
Segundo uma contagem, cerca de 70% das diretrizes clínicas ainda apoiavam vitamina D para saúde óssea até bem dentro da última década, e as prescrições continuaram a aumentar, país após país. Hábitos construídos ao longo de 30 anos demoram a ser desfeitos.
Custos e efeitos colaterais
Tudo isso tem custo. O gasto vem crescendo há décadas e, por uma estimativa, o custo anual de fornecer esses suplementos a idosos com osteoporose nos Estados Unidos e na Europa chega perto de US$ 2 bilhões.
E nem sempre é simples conviver com os comprimidos. Tabletes de cálcio podem ser difíceis de engolir. Com frequência, irritam o estômago e provocam prisão de ventre, inchaço e cólicas - desconfortos que levam alguns idosos a desistirem.
Também existem riscos mais raros. Num estudo grande com mulheres idosas, quem tomou cálcio e vitamina D teve um pouco mais de cálculos renais do que quem recebeu um comprimido placebo, embora o aumento de risco tenha permanecido pequeno.
A orientação pode mudar
O que se sabe agora, com elevada confiança, é que a suplementação rotineira de cálcio e vitamina D quase não protege a pessoa idosa média contra fraturas ou quedas. Isso já era suspeitado, mas nunca tinha sido demonstrado com tanta firmeza.
Para a maioria dos adultos saudáveis, isso pode significar abandonar um comprimido diário que vinha fazendo muito pouco. Os autores defendem que médicos e os painéis responsáveis por diretrizes reavaliem a recomendação generalizada de suplementar.
Esses achados têm limites. Pessoas que já usam medicamentos para osteoporose ainda precisam de cálcio e vitamina D como parte do tratamento, e indivíduos com certas doenças ósseas não foram o foco desta análise.
Fora desses grupos, o exercício parece oferecer proteção mais consistente. Uma grande revisão mostrou que atividade física centrada em equilíbrio e força reduz quedas em idosos em perto de um quarto - mais do que qualquer suplemento conseguiu.
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