Pular para o conteúdo

Europa autoriza Enhertu para tumores sólidos HER2 em indicação pan-tumores

Médico conversa com paciente e mostra imagem de DNA e células em tablet em consultório moderno.

A notícia caiu como uma bomba - e não é para menos: ela sinaliza um avanço enorme para a oncologia. Ainda assim, não há “milagre” aqui. Esse tratamento está longe de ser acessível a todos os pacientes e, muito menos, de servir para todos os tipos de câncer.

No dia 29 de junho, Les Echos escolheu um título deliberadamente chamativo para anunciar o tema: “A Europa surpreende ao autorizar um medicamento para todos os cânceres”. A ideia era capturar a atenção até de quem não acompanha de perto as notícias médicas - só que, dito de forma direta, isso beira a desinformação. Trata-se de uma simplificação científica grosseira que precisa ser contextualizada, mesmo sem diminuir o acerto das autoridades de saúde europeias.

Enhertu (trastuzumabe deruxtecana) e a mutação HER2

As agências europeias acabam de autorizar o uso de um tratamento chamado Enhertu (trastuzumabe deruxtecana), desenvolvido em parceria pelo laboratório britânico AstraZeneca e pela Daiichi Sankyo. A primeira autorização de comercialização pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA) veio no começo de 2021, mas naquele momento o aval era restrito ao câncer de mama metastático com mutação HER2 - uma alteração que faz o tumor crescer de forma descontrolada.

Depois, foi só em 2023 que o câncer de estômago entrou na lista. E, então, foram necessários vários anos adicionais de estudos clínicos para que a Europa aceitasse o uso do Enhertu em todos os tumores sólidos que apresentem a mutação HER2, em uma indicação chamada “pan-tumores”. A partir de agora, o Enhertu pode ser prescrito a um paciente com esse perfil, independentemente do órgão afetado. Na prática, portanto, trata-se mais de uma revolução regulatória do que de uma virada médica.

Como a indicação “pan-tumores” muda o critério de avaliação

Antes dessa ampliação, se AstraZeneca e Daiichi Sankyo quisessem estender o uso do Enhertu a um novo órgão (pulmão, cólon, pâncreas), precisavam, em grande medida, recomeçar o processo. Os laboratórios tinham de apresentar um novo ensaio clínico para cada órgão, recrutar pacientes especificamente com aquele câncer, esperar anos pelos resultados e, só depois, voltar à EMA para buscar a validação.

Era um caminho caro e demorado - e que deixava muitos pacientes, sem alternativas terapêuticas, sem acesso a uma terapia que já existia no mercado.

Na prática, dois pacientes com a mesma mutação HER2 podiam viver realidades totalmente distintas dependendo do tecido atingido: um já poderia estar elegível havia três ou quatro anos, enquanto outro ficava preso à espera de um ensaio clínico incerto. A nova indicação “pan-tumores” corrige justamente esse tipo de descompasso ao alterar o eixo de avaliação.

Em vez de tratar o Enhertu como “eficaz contra o câncer de pulmão” ou “eficaz contra o câncer de cólon”, a EMA passa a reconhecer que ele age contra uma mutação, a HER2, independentemente do tecido onde ela aparece.

Essa mudança só foi possível porque três estudos clínicos considerados robustos sustentaram o pedido - incluindo um dedicado a essa lógica transversal, no qual pacientes com cânceres bem diferentes (bexiga, próstata, colo do útero, ovários, endométrio, entre outros) foram agrupados por um único critério: a presença da mutação HER2. Com resultados julgados suficientemente convincentes, a Europa aprovou o tratamento para esse conjunto de indicações de uma só vez.

Nada disso significa, portanto, um remédio que trate qualquer câncer sem distinção. Ainda assim, essa orientação representa uma vitória enorme para os dois laboratórios. Em comunicado, a AstraZeneca afirmou que seu tratamento: “tem o potencial de mudar o curso da doença em pacientes cujo câncer avançado tem opções de tratamento limitadas e que não são elegíveis às terapias aprovadas que têm como alvo a HER2”. É um grupo bem mais restrito do que o título de Les Echos deu a entender.

Todos os cânceres, mesmo? Não exatamente

Mesmo com o uso ampliado, o Enhertu continuará destinado a uma parcela minoritária de pacientes, porque a autorização não se estende a cânceres em estágio inicial. O foco permanece em tumores inoperáveis ou metastáticos, em pessoas que já esgotaram as outras opções terapêuticas disponíveis.

Além disso, a superexpressão da mutação HER2 é rara - às vezes quase inexistente - na maior parte dos cânceres. A exceção mais frequente é o câncer de mama, em que a ocorrência é maior, na faixa de 15 a 20%.

Uma guinada burocrática ousada

Ainda assim, não dá para minimizar o alcance dessa decisão. Para quem se enquadra no perfil, esse “atalho” regulatório pode significar o fim do beco sem saída e do medo da progressão do tumor.

Mais do que isso, a Europa demonstrou que consegue avaliar um tratamento a partir do perfil genético do tumor que ele combate, e não apenas pelo órgão atingido. Historicamente, é uma abordagem pouco abraçada pelas autoridades sanitárias do Velho Continente, mais cautelosas do que sua contraparte dos Estados Unidos, a FDA (Food and Drug Administration). Talvez seja também a prova de que, quando vidas estão em jogo, essas instituições conseguem contornar a própria lentidão.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário