Uma pesquisa recente constatou que quase nove em cada dez adultos dos Estados Unidos não conseguem dizer quais são, de fato, os riscos à saúde associados ao consumo de cachorro-quente - embora cerca de metade os coma pelo menos algumas vezes por mês. O levantamento ouviu mais de 2.200 adultos norte-americanos nos dias que antecederam o Dia da Independência dos EUA (4 de julho).
Esse descompasso importa porque as evidências científicas sobre o tema não são nem novas nem incertas. Há cerca de uma década, órgãos de saúde tratam carnes curadas e embaladas - como o cachorro-quente - como causa de câncer, e o tipo de câncer mais claramente ligado a esses produtos é justamente o que cresce com maior rapidez entre adultos mais jovens.
O que a pesquisa encontrou
A sondagem, realizada para o Comitê de Médicos para uma Medicina Responsável (PCRM) pela empresa de pesquisa de opinião Consulta Matinal, perguntou a 2.201 adultos que riscos à saúde, se existissem, decorreriam de comer cachorro-quente. Aproximadamente metade respondeu que já tinha ouvido que havia riscos, mas não sabia quais eram.
Quatro em cada dez foram além e disseram não conhecer risco algum. Somadas, essas respostas indicam que quase nove em cada dez adultos não conseguem associar o cachorro-quente a um dano específico, mesmo com a procura pelo alimento permanecendo alta.
Cerca de metade dos entrevistados afirmou comer cachorro-quente duas ou três vezes por mês, e estima-se que os norte-americanos consumam 150 milhões deles apenas no 4 de julho. Esse volume torna a lacuna de conhecimento ainda mais difícil de ignorar.
Stephanie McBurnett, nutricionista registrada do Comitê de Médicos, diz que o ponto mais preocupante para ela é o quão cedo e com que frequência crianças consomem esses alimentos.
“Como os corpos e os hábitos alimentares das crianças ainda estão em desenvolvimento, a exposição precoce e frequente a carnes vermelhas e processadas - como cachorros-quentes - pode causar danos duradouros”, disse McBurnett.
Risco de câncer no cachorro-quente
O risco do cachorro-quente tem menos a ver com a carne em si e mais com a forma como a indústria o conserva. O processo de cura de carnes processadas depende de nitritos e sais relacionados e, durante a digestão, essas substâncias podem contribuir para a formação de compostos chamados substâncias N-nitrosas - moléculas que pesquisadores suspeitam ser capazes de danificar o DNA nas células que revestem o cólon.
A própria carne traz um segundo problema. A carne vermelha é rica em ferro heme, a molécula que dá a cor ao alimento, e esse ferro pode favorecer a formação de mais compostos do mesmo tipo. Essa combinação em “duas frentes” ajuda a explicar por que especialistas que estudam como o câncer se desenvolve no cólon voltam repetidamente às carnes processadas como um motivo de preocupação.
O preparo em temperatura elevada acrescenta outro elemento. Assar na grelha ou fritar um cachorro-quente parece gerar carcinógenos adicionais - substâncias capazes de causar câncer - na superfície, de modo que o método de cocção pode ampliar um risco já presente no próprio processo de conservação.
Interpretando as evidências
Por isso, em 2015, a Organização Mundial da Saúde colocou o risco de câncer colorretal associado à carne processada no seu grupo de maior certeza entre agentes causadores de câncer, ao lado do tabaco e do amianto. Esse enquadramento é frequentemente interpretado de forma errada: ele expressa o grau de confiança científica de que algo pode causar câncer, e não o quanto uma porção específica aumenta o perigo.
O tamanho do risco real é muito menor do que a comparação com o tabaco pode sugerir. Fumar multiplica o risco de câncer de pulmão, enquanto consumir o equivalente a um cachorro-quente por dia está associado a um risco cerca de 18% maior de câncer colorretal - câncer do cólon e do reto.
Esse número vem do mesmo conjunto de evidências no qual reguladores se apoiaram. Uma revisão das vias biológicas relaciona o dano provável aos nitritos usados na cura e ao ferro presente na carne.
Câncer em adultos mais jovens
A falta de percepção pesa mais sobre quem vem sendo atingido com maior intensidade. O câncer colorretal já foi predominantemente uma doença da idade avançada; ainda assim, os diagnósticos em adultos com menos de 50 anos aumentaram por duas décadas, e a doença hoje figura entre as principais causas de morte por câncer nesse grupo.
Não existe uma causa única confirmada, mas a alimentação segue aparecendo nas investigações. Uma análise de dados globais sobre a carga de doenças associa parte do aumento de casos de início precoce a padrões alimentares com pouca fibra e alta presença de carne processada e sal. Isso torna os resultados da pesquisa ainda mais relevantes.
Em média, os adultos que mais consomem cachorro-quente também são os que menos conseguem explicar por que alguém deveria pensar duas vezes. Pesquisadores de saúde pública classificam essa combinação como o tipo de cenário mais propenso a produzir doença evitável.
Fechando a lacuna de conhecimento
O risco não se limita ao câncer. O mesmo consumo diário equivalente a um cachorro-quente também é associado a maiores chances de diabetes tipo 2 e doença cardíaca. Um grande estudo que reuniu dados de centenas de milhares de pessoas relacionou o consumo regular de carnes processadas a um risco claramente mais alto de diabetes.
A pesquisa também apontou margem para mudança. Quando esses mesmos adultos foram informados de que cachorros-quentes entram na categoria de carne processada ligada a doenças graves e, em seguida, perguntados se escolheriam uma versão à base de plantas, quase metade disse que teria pelo menos alguma probabilidade de fazer a troca.
Segundo McBurnett, hoje essas alternativas são fáceis de encontrar - seja comprando cachorros-quentes vegetais no supermercado, seja preparando em casa cenouras marinadas com fumaça e especiarias. “Pelo lado positivo, há uma infinidade de alternativas mais saudáveis ao cachorro-quente disponíveis hoje em dia”, disse McBurnett.
O que o levantamento acrescenta é uma medida clara da distância entre hábito e informação. Os norte-americanos comem cachorros-quentes em números enormes e, em grande parte, não sabem que décadas de evidências os associam ao câncer que cresce mais rapidamente entre os jovens.
Diminuir essa distância não vai acabar com as grelhas neste verão. Mas dá às pessoas algo que a maioria não tinha no último churrasco: uma noção clara do que está escolhendo.
A pesquisa completa está disponível no Comitê de Médicos para uma Medicina Responsável.
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