Seres humanos se tatuam há milhares de anos, por motivos espirituais, culturais ou simplesmente pessoais.
Muito antes de a pele virar espaço para tatuagens improvisadas feitas na agulha, borboletas na lombar ou desenhos totalmente preenchidos de preto, já existia o hábito de marcar o corpo com tinta permanente.
Ainda que a história ajude a entender bastante da cultura das tatuagens, seguimos sem respostas completas sobre como essa prática pode interferir na saúde.
O que acontece quando a tinta de tatuagem entra na pele
Ao introduzir pigmento na pele, o corpo reage: isso aciona o sistema imunológico. E, embora a tinta permaneça ali por muito tempo, ela nem sempre fica exatamente onde foi aplicada.
Estudos indicam que partículas de tinta de tatuagem podem alcançar o sistema linfático e se acumular nos linfonodos.
Os linfonodos funcionam como pontos centrais da defesa do organismo. Repletos de glóbulos brancos, eles filtram o líquido linfático para remover detritos recolhidos ao circular pelo corpo - incluindo células que se comportam de forma inadequada (isto é, câncer), bactérias, vírus e substâncias estranhas como a tinta de tatuagem.
O rapper MGK disse ter descoberto isso de forma difícil depois de apressar uma tatuagem grande em preto que cobre boa parte do tronco, inclusive regiões com linfonodos nas axilas e nos ombros. Segundo ele, a pele ao redor ficou amarelada e ele se sentiu "really sick."
Mesmo sem se deslocar pelo corpo, o pigmento de tatuagem já "dispara" a resposta imune. O pigmento entra nas células da derme - a camada intermediária da pele - e é rapidamente identificado como algo estranho. Em seguida, o organismo envia seu "exército" de células de defesa, mas as partículas do pigmento são grandes demais para serem eliminadas por essas células.
É esse mecanismo que torna a tatuagem duradoura; ao mesmo tempo, ele estabelece uma disputa de vida inteira contra um invasor que o corpo não consegue retirar.
Parte do que mantém uma tatuagem por tanto tempo é o facto de as tintas modernas serem uma mistura complexa de substâncias químicas.
"They contain pigments that give color, liquid carriers that help distribute the ink, preservatives to prevent microbial growth, and small amounts of impurities," explicou a microbiologista médica Manal Mohammed em um artigo publicado no The Conversation.
"Many pigments currently in use were originally developed for industrial applications such as car paint, plastics, and printer toner, rather than for injection into human skin."
Do que são feitas as tintas de tatuagem: metais pesados e pigmentos azo
Pesquisadores já identificaram quantidades vestigiais de metais pesados em tintas de tatuagem, como níquel, cobalto, crómio e, em casos raros, chumbo. Quando se acumulam em níveis elevados, metais pesados podem ser tóxicos e provocar problemas graves - por exemplo, danos em órgãos internos, neurotoxicidade e aumento do risco de câncer.
Em algumas situações, esses metais pesados desencadearam reações alérgicas e sensibilidade do sistema imunológico em quem fez a tatuagem.
É difícil esquecer o relato assustador de um homem polonês cuja resposta imunológica a uma tatuagem com tinta vermelha incluiu perder a capacidade de suar, ficar sem todos os pelos do corpo e desenvolver vitiligo, uma condição que clareia a pele.
"Colored inks, particularly red, yellow, and orange, are more frequently associated with allergic reactions and chronic inflammation," afirmou Mohammed.
"Red ink is particularly associated with persistent itching, swelling, and granulomas… small inflammatory nodules that form when the immune system attempts to isolate material it cannot remove."
As reações alérgicas e a inflamação crônica associadas às tintas coloridas acontecem, em parte, por causa de sais metálicos e de pigmentos azo.
Pigmentos azo são compostos orgânicos adicionados à tinta de tatuagem para criar cores intensas - e também são usados em têxteis e plásticos justamente por essa capacidade.
O problema é que esses pigmentos podem se degradar e formar aminas aromáticas quando expostos a certos tipos de radiação: algo que pode ocorrer, por exemplo, se a pele ficar tempo demais ao sol ou se a pessoa decidir remover a tatuagem com laser.
Isso preocupa porque estudos de laboratório associaram aminas aromáticas a câncer e a danos genéticos.
Os pigmentos de tatuagem - sobretudo os pretos - também podem conter hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, presentes na fuligem, nos gases de escapamento de veículos e em alimentos queimados. Muitos desses hidrocarbonetos são classificados como cancerígenos.
Riscos possíveis e como se proteger ao fazer uma tatuagem
Até agora, não há evidência forte em humanos que conecte tatuagens diretamente ao câncer - porém pesquisas em laboratório e em animais sugerem que podem existir riscos.
Um estudo observacional publicado no fim do ano passado ainda apontou que pessoas tatuadas apresentaram um risco 29 percent maior de melanoma (um tipo de câncer de pele), embora outros estudos recentes não tenham encontrado essa associação.
As respostas imunológicas que tatuagens podem provocar também devem pesar na decisão antes de marcar uma nova sessão.
"While current evidence does not suggest widespread danger, growing research highlights important unanswered questions about toxicity, immune effects and long-term health," escreveu Mohammed no The Conversation.
"Chronic inflammation has been linked to tissue damage and increased disease risk. For people with autoimmune conditions or weakened immune systems, tattoos may pose additional concerns."
Além disso, existe o risco de infeção ao introduzir qualquer material estranho - incluindo a agulha - na pele.
O processo de tatuar rompe a barreira cutânea, uma das defesas fundamentais do corpo contra infeções como Staphylococcus aureus, hepatite B e C e, em casos raros, infeções por micobactérias atípicas.
Como a indústria de tatuagem é pouco regulamentada em muitos países, vale conhecer bem os riscos e ir com calma se você optar por tatuar.
É importante conversar com o tatuador sobre quais tintas ele utiliza e quais práticas de higiene são seguidas. E, se você tem histórico de problemas imunológicos, o ideal é falar com um médico antes de prosseguir.
"Tattoos remain a powerful form of self-expression, but they also represent lifelong chemical exposure," concluiu Mohammed.
"As tattooing continues to rise worldwide, the case for better regulation, transparency, and sustained scientific investigation becomes increasingly difficult to ignore."
Este artigo foi checado por Rebecca Dyer e editado por Clare Watson. Embora tenhamos orgulho do nosso processo, também somos humanos. Se você encontrar algum erro, por favor, avise a gente.
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