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Naloxona na parada cardíaca por overdose de opioides: o que um grande estudo da Califórnia encontrou

Paramédico aplicando máscara de oxigênio em homem desmaiado na calçada com ambulância ao fundo.

Paramédicos costumam seguir um roteiro quando suspeitam de uma overdose de opioides: aplicam naloxona - o medicamento que bloqueia receptores opioides e faz a respiração voltar - e então observam o paciente começar a reagir. Na parada cardíaca, não existe um roteiro tão direto.

Se a naloxona ajuda ou não durante uma parada cardíaca nunca teve uma resposta robusta. Não havia respiração para “restaurar”, nem uma explicação clara baseada em receptores, nem uma forma simples de saber se o fármaco sequer chegava a algum tecido.

Durante anos, a dúvida ficou em aberto. Um grande estudo novo na Califórnia decidiu, finalmente, procurar evidências.

Um perigo em alta

As mortes por drogas nos Estados Unidos aumentaram por duas décadas, chegando a quase 115,000 em 2023, antes de recuar no ano seguinte. Ainda assim, o total permanece bem acima dos níveis de antes da pandemia.

Com a escalada das mortes, também cresceram os casos de parada cardíaca associados a drogas. Há dez anos, menos de 3% eram atribuídos a uma overdose de opioides. Estimativas mais recentes chegam a 17 percent.

Foi nesse cenário que um novo estudo tentou testar uma hipótese ainda incerta. Ralph C. Wang, MD, é médico emergencista na University of California, San Francisco (UCSF).

Ele e seus colegas formularam a pergunta de maneira direta: a naloxona ajuda na parada cardíaca, quando o coração já parou?

Reverter uma overdose

A naloxona tem um efeito bem documentado sobre a respiração. Quando opioides desaceleram a ventilação até ela parar, uma dose pode fazê-la retornar em um ou dois minutos - rápido o bastante para ver a cor do paciente melhorar.

Mais conhecida pelo nome comercial Narcan, a medicação já reverteu inúmeras overdoses. Só que um coração parado é uma emergência diferente: não há pulso, não há circulação, e o cérebro começa a sofrer em poucos minutos.

As orientações da American Heart Association consideram razoável tentar o medicamento, mas ressaltam que nenhum ensaio clínico demonstrou benefício. Nas diretrizes, a questão aparece entre as maiores lacunas de evidência da área.

Naloxona na parada cardíaca

Para se aproximar de uma resposta, os pesquisadores recorreram a uma rede estadual com 173 serviços de ambulância, que atendem cerca de 24 million de californianos. Em conjunto, esses serviços lidam com aproximadamente 19,000 paradas cardíacas por ano.

Identificar uma morte por opioides no caos de uma chamada para o 911 é difícil. Por isso, a equipe usou uma ferramenta de triagem que sinaliza casos prováveis a partir de dois indícios: idade abaixo de 50 e uma queda/desmaio que ninguém presenciou.

Esse filtro reduziu a amostra a 3,811 pacientes; cerca de um terço recebeu naloxona. A partir daí, a comparação foi simples no conceito.

Os pacientes que receberam o fármaco foram comparados aos que não receberam em três desfechos: sobreviver até ter alta hospitalar, função cerebral após o evento e retorno do pulso.

O que eles encontraram

Um resultado se destacou. Entre os casos suspeitos de opioides, cerca de 8% dos que receberam naloxona sobreviveram e tiveram alta, contra aproximadamente 4% entre os que não receberam.

O coração também voltou a bater com mais frequência: em torno de 14% no grupo tratado, versus cerca de 10% sem o medicamento. Nenhum estudo anterior havia analisado essa pergunta em um grupo tão grande.

Mesmo após ajustes por idade, histórico de saúde e outras diferenças entre os grupos, a naloxona continuou associada a alguns pontos percentuais extras de sobrevida.

Também houve melhora na chance de sair do hospital com a mente preservada: por volta de 7% contra 3 percent. Nos casos que os paramédicos marcaram como overdoses, o sinal ficou ainda mais forte.

Nesse subconjunto, a sobrevida no grupo tratado praticamente dobrou, com uma diferença perto de nove percentage points - uma margem grande para uma condição que a maioria das pessoas não sobrevive.

Respiração ou ausência de pulso

Então veio o achado que torna a história mais complexa. Os pesquisadores concentraram a análise em pacientes cujo coração claramente havia parado - aqueles que receberam adrenalina (epinefrina), medicamento usado quando a parada é confirmada.

Nesse grupo, a vantagem de sobrevida quase desapareceu. Uma explicação provável está no limite do que a naloxona consegue - e do que não consegue - fazer.

Algumas pessoas que parecem estar em parada cardíaca, na verdade, estão em insuficiência respiratória, com um pulso fraco demais para ser percebido. A naloxona poderia reanimá-las, ao contrário do que ocorre quando o coração realmente parou.

Uma análise de prática em ambulâncias já apontou como é fácil confundir esses dois quadros. Quando casos de falência respiratória entram no grupo de overdose, eles distorcem o resultado.

Com isso, o medicamento parece mais eficaz do que seria contra um coração de fato parado. E os dados não conseguem separar essas situações de forma totalmente limpa.

Rumo a uma prova mais firme

Um estudo como este apenas observa o que já aconteceu; ele não consegue distribuir o medicamento de modo aleatório. Foram os paramédicos que decidiram quem receberia naloxona, com tendência a tratar pacientes mais jovens, em locais públicos e com sinais mais evidentes de overdose.

Correlação, ainda não causa.

O que faltava ao campo era um sinal claro, em grande escala, de que a naloxona ajuda na parada cardíaca em milhares de casos suspeitos de opioides. Agora, esse sinal existe.

Para estabelecer causalidade, Wang e colegas defendem um ensaio que distribua aleatoriamente o medicamento ou um placebo. Até lá, os serviços têm motivos para considerar a naloxona quando a parada parecer motivada por drogas.

Para milhares de vítimas de overdose por ano, essa resposta pode definir quem sai andando do hospital.

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