A mudança climática pode alterar profundamente o desenho das temporadas de gripe nas Américas, segundo um novo estudo: em áreas mais frias, os surtos de inverno tenderiam a perder força, enquanto, nos trópicos, poderiam ganhar intensidade. Os autores associaram esse comportamento a uma regra única e inesperada - a gripe se transmite com mais facilidade quando o ar está muito seco ou muito úmido.
Baseada em anos de registros de influenza, essa regra permite que um único modelo estime quando a gripe deve atingir e quão intensa pode ser em lugares tão distintos quanto o Canadá e a Costa Rica. Ela também muda a leitura de risco: o aquecimento pode suavizar a gripe de inverno em países frios, ao mesmo tempo em que amplia surtos em regiões tropicais.
Gripe em diferentes climas
A influenza adoece cerca de um bilhão de pessoas no mundo todos os anos e mata centenas de milhares. Nas partes mais frias das Américas, ela costuma aparecer como uma onda bem marcada no inverno. Já mais perto do equador, tende a persistir por boa parte do ano - e, em alguns locais, chega a apresentar dois picos distintos.
Há muito tempo os cientistas sabem que o clima ajuda a moldar as temporadas de gripe. O que permanecia incerto era se um mesmo conjunto de condições conseguiria explicar ritmos tão diferentes. Grande parte das pesquisas anteriores analisava ou as regiões de inverno rigoroso, ou os trópicos - raramente as duas faixas juntas.
Uma equipe liderada por Aleksandra Stamper, doutoranda em epidemiologia na Escola de Saúde Pública da Universidade Brown, decidiu testar essa hipótese.
Os pesquisadores reuniram registros semanais de gripe de 81 localidades nas Américas e combinaram cada série com medições locais de temperatura e umidade. Poucas bases de dados têm esse alcance.
Um modelo, dois padrões
Para comparar os locais em pé de igualdade, o grupo calculou o que os pesquisadores chamam de intensidade epidêmica - isto é, o quanto os casos de um ano ficam concentrados em uma janela curta, em vez de se distribuírem ao longo do calendário.
As regiões frias apresentaram valores altos, com a maioria dos casos comprimida no inverno. Já as áreas equatoriais tiveram valores baixos, com ocorrências espalhadas ao longo do ano.
Em seguida, a equipe inseriu esses registros em um modelo que acompanha como as pessoas ganham e perdem imunidade. O resultado foi que uma única relação climática foi suficiente para reproduzir os dois tipos de sazonalidade.
Rachel Baker, autora sênior do estudo e professora assistente de epidemiologia e de meio ambiente e sociedade na Universidade Brown, afirmou: “Essas mesmas relações climáticas subjacentes podem explicar padrões de surtos observados muito diferentes ao longo das latitudes”.
Assim, tanto os picos de inverno em climas frios quanto a atividade quase contínua nos trópicos surgiram da mesma formulação.
Ar seco, ar úmido
O aspecto inesperado apareceu na forma como a umidade afeta o vírus. A quantidade de vapor d’água no ar - o que os cientistas chamam de umidade específica - não empurrou a transmissão em uma única direção.
A disseminação foi mais rápida em ar muito seco, diminuiu conforme a umidade aumentou e voltou a crescer quando o ar ficou pesado e muito úmido.
A temperatura ainda acentua essa curva: quanto mais frio o ar, maior a transmissão. As duas “pontas” desse formato em U coincidem com o que se observa na prática. O ar seco do inverno ajuda a explicar as temporadas duras em regiões frias, e o ar úmido de uma estação chuvosa tropical pode produzir um efeito semelhante perto do equador.
Evidências de laboratório sustentam o lado frio e seco da curva. Estudos anteriores indicaram que ar com baixa umidade permite que partículas de gripe permaneçam infecciosas por mais tempo e se espalhem com maior facilidade entre pessoas.
Por que os trópicos são diferentes
O modelo também impõe um limite no extremo quente, por volta de 23 °C (74 °F), ponto em que o calor parece começar a degradar o vírus.
Ele ainda esclarece o enigma das duas temporadas tropicais. Um surto forte no inverno consome tantos indivíduos suscetíveis que sobra pouca gente para sustentar uma segunda onda - por isso, em regiões frias, costuma haver apenas um pico.
Nos trópicos, surtos mais moderados deixam um contingente maior de pessoas suscetíveis, permitindo que o vírus volte a ganhar força duas vezes no mesmo ano. Esse padrão mais amplo ecoa resultados anteriores. Uma análise de 2013 sobre gripe em zonas temperadas e tropicais concluiu que condições muito secas e muito úmidas favoreciam surtos.
Esse estudo também identificou um limiar de umidade que separaria invernos de pico único de temporadas tropicais com dois picos. O ponto mais baixo do novo modelo ficou quase exatamente nesse valor.
Stamper disse: “Ao entender a transmissão como uma função da umidade e da temperatura, conseguimos prever de forma confiável como o surto sazonal de influenza em um estado como Wisconsin será diferente do surto sazonal na Costa Rica”. O mesmo modelo, portanto, se aplica de um clima a outro.
Um século mais quente
Para projetar o futuro, a equipe executou o modelo com projeções de dez modelos climáticos globais, considerando tanto um cenário de emissões moderadas quanto um de emissões altas. Eles compararam a gripe perto do fim do século, aproximadamente entre 2080 e 2100, com o passado recente.
As perspectivas variam conforme a latitude. Em muitas regiões de inverno frio, o aquecimento empurra o ar em direção ao “meio” da curva de umidade - justamente onde o vírus tem pior desempenho - e, com isso, os picos máximos tendem a enfraquecer. Já em áreas tropicais que já são úmidas, o mesmo aquecimento desloca as condições ainda mais para a ponta úmida, onde a transmissão aumenta.
As mudanças não são uniformes. Michigan e outros locais de inverno intenso quase não se alteram, porque sua oscilação sazonal profunda já leva a transmissão a um extremo. Em pontos tropicais, a variação é maior: alguns modelos transformam a única temporada da Nicarágua em duas ondas, enquanto partes do sul do Brasil trocam dois picos por um único aumento precoce.
Stamper afirmou: “Não esperamos simplesmente que a intensidade dos surtos diminua em todos os lugares sob condições climáticas futuras”. As mudanças projetadas seguem a mesma curva de umidade que rege a gripe hoje, porém deslocada por uma atmosfera mais quente e mais úmida.
O clima é apenas parte da história. Um trabalho de modelagem anterior, conduzido pela autora principal do estudo, já havia examinado como extremos climáticos podem fazer os surtos de gripe oscilarem - um lembrete de que o tempo é apenas uma das forças em jogo.
Taxas de vacinação, aglomeração e comportamento humano também afetam os surtos. A própria evolução do vírus, por meio da deriva antigênica - que altera a superfície do influenza e desgasta imunidades anteriores - vai além do que o clima consegue antecipar.
Previsões de gripe mais precisas
Antes deste estudo, ninguém havia demonstrado que um único conjunto de condições climáticas poderia explicar as temporadas de gripe tanto nas áreas frias quanto nas tropicais das Américas. O novo modelo faz isso e, em seguida, leva a mesma lógica para um cenário de aquecimento global.
Esse alcance é o que torna o modelo prático. Autoridades de saúde poderiam usá-lo para estimar quando a gripe deve atingir seu pico e quão severa a temporada pode ser.
Isso é especialmente útil em regiões tropicais, onde a vigilância costuma ser limitada e previsões são mais difíceis. Planejar o momento das campanhas de vacinação e preparar estoques e leitos hospitalares depende desse tipo de antecedência.
As projeções também reorganizam expectativas sobre risco. Países frios, acostumados a se preparar para uma onda forte de inverno, podem ver essas temporadas perderem intensidade. Já países tropicais, que convivem com gripe ao longo do ano, podem enfrentar surtos mais pesados ou com outro timing.
A mesma abordagem baseada no clima pode até ajudar a acompanhar outros vírus respiratórios cujas temporadas variam entre regiões frias e quentes, especialmente onde faltam dados de casos.
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