Da próxima vez que você for preparar um smoothie de frutas vermelhas, talvez valha a pena pensar duas vezes antes de colocar banana.
É verdade que ela é rica em potássio e deixa a bebida mais espessa e cremosa. Ainda assim, pode acabar reduzindo parte do ganho nutricional que vem das frutas.
Pesquisas da Universidade da Califórnia, Davis (UCD) indicam que há um componente da banana capaz de “abafar” a ação dos antioxidantes presentes em frutas vermelhas.
O que os pesquisadores observaram com flavonóis em smoothies
Os antioxidantes analisados nesse trabalho são os flavonóis.
Eles aparecem em alimentos de origem vegetal como frutas vermelhas, chá, cacau, maçãs, peras e pêssegos - e muita gente ainda consome menos flavonóis do que o ideal no dia a dia.
Quando alguém ingere alimentos ricos em flavonóis, esses compostos costumam ser absorvidos rapidamente e chegam à corrente sanguínea, onde passam por processamento. Desse processo surgem metabólitos, associados a possíveis benefícios como melhora da saúde cardiovascular e da função cognitiva.
O problema é que experimentos sugerem que, ao misturar apenas uma banana a uma combinação com frutas vermelhas, esses metabólitos passam a aparecer em quantidade bem menor.
O ensaio controlado e cego com 8 participantes
Em um estudo controlado e cego publicado em 2023 na revista Food and Function, pesquisadores da UCD acompanharam um pequeno grupo de oito participantes. Eles receberam, em momentos diferentes, ou um smoothie de frutas vermelhas rico em flavonóis, ou uma cápsula simples de flavonóis.
Exames posteriores indicaram aumento dos níveis de metabólitos de flavonóis no sangue.
Porém, quando os voluntários consumiram um smoothie de banana com frutas vermelhas, os metabólitos medidos no sangue ficaram 84 por cento mais baixos do que após uma dose “pura” de flavonóis.
O nutricionista Javier Ottaviani, da UCD, comentou na época: "Ficamos realmente surpresos ao ver como, tão rapidamente, a adição de uma única banana reduziu o nível de flavonóis no smoothie e os níveis de flavanol absorvidos no corpo".
Ele acrescentou: "Isso destaca como o preparo dos alimentos e as combinações podem afetar a absorção de compostos dietéticos presentes nos alimentos".
Por que a banana pode atrapalhar: a enzima polifenol oxidase (PPO)
A explicação mais provável para esse efeito envolve uma enzima chamada polifenol oxidase (PPO). Ela participa do processo de oxidação que faz a banana escurecer depois de descascada.
Ao entrar em contato com a banana, os antioxidantes acabariam “se ocupando” com a PPO, o que reduziria a chance de exercerem plenamente seus efeitos no organismo.
Em experimentos, quando um smoothie de banana com frutas vermelhas (com alta atividade de PPO) ficou em temperatura ambiente, os pesquisadores observaram que, após uma hora parado, ele continha menos flavonóis do que um smoothie feito apenas com frutas vermelhas.
Por outro lado, quando a PPO das bananas foi inibida, os flavonóis permaneceram.
Esses achados sugerem que a PPO pode diminuir a disponibilidade dos flavonóis antes mesmo de eles entrarem no corpo humano.
Teste extra com 11 participantes e limitações do estudo
Para verificar se a banana também consegue “desarmar” antioxidantes dentro do estômago, os pesquisadores organizaram uma etapa com 11 participantes, que consumiram ao mesmo tempo duas bebidas separadas: uma bebida de banana e uma bebida de frutas vermelhas.
Dessa forma, a PPO não teria como interagir com os flavonóis antes da ingestão. Mesmo assim, os pesquisadores constataram que os metabólitos de flavonóis apareciam em menor quantidade na corrente sanguínea depois que as pessoas tomavam os dois smoothies separadamente, em comparação com quando não consumiam nenhuma bebida de banana.
A pesquisa foi realizada com um número pequeno de participantes do sexo masculino; ainda assim, os cientistas da UCD consideram que os resultados iniciais merecem mais atenção.
Os autores concluem: "[E]ste estudo destaca que é preciso considerar não apenas os tipos de frutas e vegetais e produtos de origem vegetal a recomendar para aumentar a ingestão, mas também como eles são preparados, armazenados e consumidos como parte de uma refeição regular, a fim de maximizar seu potencial de apoiar a saúde".
O estudo foi publicado na revista Food and Function.
Este artigo teve checagem de fatos por Jess Cockerill e edição por Rebecca Dyer. Embora tenhamos orgulho do nosso processo, somos humanos. Se você notar algum erro, avise a gente.
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