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VRON-0200: uma única injeção e a cura funcional da hepatite B crônica

Homem sorridente recebe curativo na vacinação aplicada por médica em consultório iluminado.

Médicos conseguem silenciar o vírus da hepatite B, mas não fazê-lo desaparecer. Uma cura funcional da hepatite B - controlo duradouro sem medicamentos diários - continua a ser um objetivo difícil.

Os comprimidos tomados todos os dias fazem a carga viral cair para perto de zero. Porém, ao interromper o uso, o vírus volta rapidamente, como se o tratamento nunca tivesse existido.

Um estudo com uma única injeção em 27 pessoas com infeção crónica quebrou esse padrão. A resposta imunitária desencadeada não diminuiu com o tempo; passados mais de dois anos, ela parecia ainda mais intensa.

Uma abordagem diferente

O conceito é fácil de explicar e complicado de concretizar: em vez de somar mais um fármaco para suprimir o vírus, a proposta é recolocar o próprio sistema imunitário do paciente no combate.

O professor Edward Gane, da Universidade de Auckland, apresentou os resultados em Barcelona. A terapia, chamada VRON-0200, foi administrada a 27 adultos cuja infeção estava controlada com comprimidos antivirais.

Todos receberam uma aplicação no braço, e parte do grupo tomou uma dose de reforço mais tarde. Ninguém interrompeu a medicação. A questão era saber se uma única injeção seria capaz de provocar uma resposta que os comprimidos diários não costumam gerar.

Acordando defesas cansadas

Na hepatite B crônica, as células de defesa que deveriam procurar e eliminar células do fígado infetadas acabam exaustas. Esse colapso, descrito num estudo anterior, ajuda a entender por que o vírus se mantém instalado.

A injeção entrega componentes virais usando dois vírus vetores inofensivos originados de chimpanzés. Assim, o sistema imunitário consegue “ver” com nitidez o alvo, reativando células antes esgotadas que deveriam persegui-lo.

O tratamento também inclui um componente desenhado para aliviar os “travões” que o corpo impõe às próprias defesas. Apesar de a terapia não mirar a proteína de superfície que os médicos acompanham, essa proteína começou a diminuir mesmo assim.

O que o ensaio mostrou

Um ano após a dose única, a maioria dos participantes exibiu um resultado raro numa infeção tão persistente. Em 23 de 27, os níveis da proteína de superfície permaneceram estáveis ou continuaram a cair.

Cerca de metade teve uma redução superior a 50%. Em alguns casos, a queda foi muito maior - redução de dez vezes ou mais. Um efeito desse tamanho normalmente exige bem mais do que uma aplicação.

E nada disso veio acompanhado de efeitos adversos graves capazes de inviabilizar um tratamento experimental. O ensaio não registou reações perigosas nem desistências, e os exames do fígado mantiveram-se normais durante todo o período.

Quedas que continuaram

O inesperado apareceu mais tarde. Quando os investigadores reavaliaram uma dúzia de pacientes - alguns com mais de dois anos desde a primeira aplicação - a proteína não havia voltado a subir. Em 11 de 12, ela seguia em queda.

Dois desses pacientes eliminaram totalmente a proteína de superfície do sangue, o desfecho que define uma cura funcional.

O acompanhamento mais longo chegou a 846 dias, muito além do intervalo em que uma resposta imunitária costuma enfraquecer. Aqui, no entanto, ela pareceu ganhar força.

Tratava-se de algo ainda não demonstrado. Em tentativas anteriores de estimular o sistema imunitário, o efeito diminuía quando o estímulo era interrompido. Neste caso, uma única dose iniciou uma resposta que prosseguiu por conta própria.

Por que ocorre o retorno do vírus

Os comprimidos atuais são eficazes: comprimem o vírus até quase desaparecer. O problema é que deixam o sistema imunitário fragilizado. Ao parar de tomar, o vírus normalmente reaparece em poucas semanas.

Esse retorno é o principal entrave para uma cura. Um artigo que acompanhou pacientes que interromperam o tratamento observou o vírus voltar em um em cada cinco. O objetivo é que o corpo mantenha a supressão do vírus sozinho.

Nesse contexto, quedas que se sustentam por dois anos sem qualquer sinal de retorno chamam a atenção.

Como esses pacientes continuaram a tomar os comprimidos, o seguimento não prova que a injeção, isoladamente, seja suficiente para manter o vírus baixo. Ainda assim, indica uma resposta imunitária que se fortaleceu, em vez de estagnar.

Faísca e fortalecimento

Por trás da terapia está um plano em dois passos que os investigadores chamam de “faísca e fortalecimento”. Uma aplicação acende a faísca, e depois os antivirais fortalecem essa resposta até ela se tornar robusta o suficiente para eliminar o vírus.

Há anos se procuram vacinas terapêuticas para hepatite B, e uma revisão extensa mostra quantas ficaram aquém do esperado. A durabilidade observada aqui é o que diferencia esta tentativa.

Um ensaio maior já está em andamento para testar se os pacientes podem suspender completamente os comprimidos e, ainda assim, manter o vírus controlado. O estudo também incluirá pessoas com níveis mais altos da proteína, um grupo mais difícil.

Rumo a uma cura funcional

Pela primeira vez, uma injeção única restabeleceu uma resposta imunitária duradoura contra a hepatite B crônica, mantendo-se por mais de dois anos sem retorno. Nada semelhante havia sido apresentado antes.

Isso abre uma possibilidade aguardada há muito tempo. Em vez de uma vida inteira de comprimidos diários, alguns pacientes poderiam fazer um tratamento curto e, depois, depender das defesas recuperadas para manter o vírus silenciado.

Quase 260 milhões de pessoas vivem com hepatite B crônica, e a doença mata mais de um milhão por ano. Um tratamento de dose única capaz de reativar essas defesas teria impacto muito além deste grupo de 27 participantes.

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