Um arranhão pequeno no olho pode parecer algo simples. Em cães, gatos e cavalos, porém, esse tipo de lesão pode evoluir para uma infeção que ameaça a visão em apenas um dia.
O que antes costumava resolver esses casos com rapidez está a perder eficácia. As bactérias estão a sobreviver aos medicamentos, e relatos desse fenómeno aparecem em mais locais a cada ano.
A ceratite é uma infeção da córnea - a cúpula transparente na parte anterior do olho. Quando microrganismos conseguem penetrar nessa estrutura, podem destruir o tecido com grande velocidade.
Isso é especialmente preocupante porque a córnea não tem irrigação sanguínea capaz de levar defesas ao local. A proteção depende sobretudo das lágrimas, e elas têm alcance limitado quando a superfície já foi rompida.
Bactérias resistentes estão a espalhar-se
Uma nova revisão reúne evidências de vários países sobre esse cenário. O trabalho é de Dr. Lionel Sebbag e Dr. Oren Pe’er, da Koret School of Veterinary Medicine, na Universidade Hebraica de Jerusalém.
O ponto central é a resistência antimicrobiana (RAM), isto é, bactérias que deixam de morrer quando expostas a um fármaco.
O maior receio recai sobre infeções oculares: adiar a conduta por um ou dois dias pode custar a visão do animal.
“Antimicrobial resistance is no longer a theoretical concern in veterinary ophthalmology,” os autores observaram. “It is a clinically significant and evolving reality.”
Os mesmos germes continuam a surgir
Relatos da América do Norte, Europa, Ásia, América do Sul e Austrália convergem para um conjunto parecido de agentes.
Entre os principais estão Staphylococcus pseudintermedius, estreptococos beta-hemolíticos e Pseudomonas aeruginosa.
A Pseudomonas é, em geral, a mais temida pelos veterinários. Ela pode “dissolver” a córnea em pouco tempo, e esses quadros frequentemente terminam em cirurgia ou na perda do olho.
Cavalos trazem complicações adicionais
Nas infeções oculares de cavalos, nem sempre a bactéria é a única responsável. Fungos entram com frequência no processo, e, nesse contexto, um antibiótico pode falhar simplesmente por estar a combater o inimigo errado.
Por isso, em equinos, é comum que os veterinários procurem os dois agentes desde cedo. Quando essa etapa é ignorada, dias valiosos podem ser desperdiçados enquanto a causa real continua a avançar.
Gatos tendem a evoluir melhor
Dentro do panorama geral, os gatos aparecem como um ponto relativamente favorável. Na maioria dos relatos, as infeções oculares em felinos ainda respondem bem a fármacos comuns.
Ainda assim, as informações sobre gatos permanecem limitadas, com amostras pequenas avaliadas até agora. Portanto, é cedo para afirmar que eles estejam fora da tendência observada de forma mais ampla.
Resistência a vários fármacos ao mesmo tempo
Algumas bactérias passaram a resistir simultaneamente a diferentes medicamentos. Esses casos são chamados de bactérias multirresistentes (MDR) e deixam pouquíssimas alternativas terapêuticas.
Essas estirpes mais difíceis aparecem com maior frequência em clínicas de referência, que concentram os casos mais graves.
Em muitos grupos de cães, a proporção fica perto de 20 a 25 percent, e, em certos serviços, chega a 40 ou mesmo 50 percent.
O cenário muda conforme a região
A resistência não se apresenta de maneira uniforme entre locais.
Algumas clínicas na Ásia descrevem taxas muito elevadas, enquanto partes da Europa observaram aumentos acentuados em apenas alguns anos.
Daí a importância do acompanhamento local. Um fármaco que ainda funciona num país pode já não ter utilidade noutro.
Tratar cedo pode prejudicar depois
Um resultado apareceu em praticamente todos os estudos: animais que tinham usado recentemente colírios antibióticos mostraram maior probabilidade de albergar germes resistentes.
Há ainda um segundo problema nesse grupo. As culturas microbiológicas muitas vezes vêm negativas, e o veterinário pode nem conseguir identificar qual microrganismo está por trás do quadro.
A conclusão prática é recolher amostras o quanto antes. Fazer o swab antes de acumular medicamentos aumenta a chance de uma leitura fiel do que realmente está presente.
Depois que a terapêutica começa, o retrato muda rapidamente. Os germes que sobrevivem tendem a ser os mais resistentes, o que distorce tudo o que vem a seguir.
Por que testes de laboratório podem enganar
Em laboratório, é possível avaliar uma amostra e obter um relatório de quais fármacos “deveriam” funcionar. O problema é que esses testes são baseados em medicamentos administrados por via oral ou injetável, não em gotas aplicadas no olho.
Na superfície ocular, os colírios comportam-se de outra forma. Assim, um medicamento considerado inútil no papel pode ter efeito na prática, e outro classificado como eficaz pode mesmo assim falhar no animal.
Como os colírios atuam de facto
Assim que a gota é aplicada, a concentração do fármaco no olho sobe para níveis muito altos. Em poucos minutos, no entanto, as lágrimas eliminam grande parte dessa quantidade.
Outros obstáculos também interferem. Proteínas presentes nas lágrimas, edema e uma barreira viscosa construída pelas bactérias - o biofilme - podem reduzir a ação de um medicamento que parecia forte no laboratório.
Um risco também para pessoas
A revisão discute o tema sob a perspetiva de Saúde Única (One Health), que reconhece a ligação entre a saúde dos animais e a humana. Várias dessas bactérias conseguem passar entre animais de companhia e pessoas.
Staphylococcus pseudintermedius exemplifica bem isso. Antes visto como um agente típico de cães, hoje sabe-se que também pode infetar humanos, além de circular por clínicas, instrumentos e até dentro de casas.
Dentro de um domicílio, essa via pode ocorrer nos dois sentidos. Cães de pessoas que trabalham na saúde humana ou animal têm cerca de 4.6 vezes mais probabilidade de carregar estafilococos resistentes à meticilina nos olhos.
Ferramentas para além dos antibióticos
Com o enfraquecimento dos fármacos tradicionais, os autores apontam alternativas. Entre elas estão antissépticos, abordagens para romper biofilmes, reticulação corneana (cross-linking) e métodos com luz ultravioleta.
Nenhuma dessas medidas substitui antibióticos adequados quando o caso é grave. O melhor papel é o de apoio, reduzindo a quantidade de antibiótico necessária.
Os autores defendem testes mais precoces, escolhas terapêuticas mais criteriosas e melhoria da higiene nas clínicas. Também pedem orientações específicas para o olho, alinhadas com a forma como os colírios realmente se comportam.
“The goal is not simply to resolve the current infection, but to preserve therapeutic reliability for future patients,” concluíram os investigadores.
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