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Neurociência e neuromitos entre educadores da primeira infância na Austrália

Mulher segurando modelo do cérebro enquanto estuda em sala, com tablet e desenhos na mesa.

Muitos professores e famílias já reconhecem que a neurociência - o campo que investiga como o cérebro funciona e se desenvolve - tem relevância direta para a educação das crianças.

Nas universidades, conteúdos sobre desenvolvimento cerebral são recomendados na formação docente. A neurociência também aparece na “estrutura para os primeiros anos” da Austrália, que orienta programas de educação infantil.

Ainda assim, estudos anteriores mostram que há equívocos persistentes sobre como a neurociência realmente funciona - os chamados “neuromitos” - entre professores, tanto na Austrália quanto em outros países.

Nosso novo estudo indica que alguns desses neuromitos também estão amplamente disseminados entre educadores da primeira infância.

Quais são esses mitos? E o que as evidências de pesquisa apontam?

Nossa pesquisa

Em 2022, aplicamos um questionário a mais de 520 educadores australianos da primeira infância para mapear o nível de conhecimento em neurociência.

Optamos por investigar educadores da primeira infância porque existe uma lacuna de pesquisa sobre o que sabem e como pensam os profissionais que ensinam e cuidam de crianças menores. Os questionários foram distribuídos on-line por diferentes meios, incluindo listas de e-mail, redes sociais e associações profissionais.

Cerca de 74% dos participantes trabalhavam em creches de período integral ou em pré-escola/jardim de infância (atendendo crianças nos últimos anos antes do início do ensino formal). Aproximadamente 63% tinham graduação (bacharelado) ou uma qualificação de pós-graduação.

Nossas conclusões

Para avaliar o conhecimento em neurociência, pedimos que os participantes julgassem se diferentes afirmações falsas eram verdadeiras. A pontuação média de acertos foi de 13,7 de 27.

Alguns mitos incluídos no questionário foram amplamente - e corretamente - reconhecidos como falsos. Por exemplo, mais de 90% identificaram como incorretas as afirmações “quando dormimos, nosso cérebro desliga” e “a capacidade mental é apenas hereditária e não pode ser alterada pelo ambiente ou pela experiência”.

Porém, em relação a outros neuromitos, a maioria disse não saber ou considerou a frase correta. Por exemplo:

  • apenas 7% identificaram corretamente como falsa a afirmação “ensinar de acordo com diferentes estilos de aprendizagem vai melhorar a aprendizagem”.
  • apenas 15% identificaram corretamente como falsa a afirmação “os estudantes são ‘do hemisfério esquerdo’ ou ‘do hemisfério direito’”.

Esse padrão sugere que educadores precisam ter mais acesso a conteúdos de neurociência baseados em evidências em sua formação e no desenvolvimento profissional. Embora alguns neuromitos pareçam inofensivos, outros podem influenciar decisões pedagógicas e, na prática, afetar a aprendizagem.

Qual é, afinal, o problema desses neuromitos?

Mito 1: “ensinar de acordo com diferentes estilos de aprendizagem vai melhorar a aprendizagem”

A noção de estilos de aprendizagem ganhou força nos anos 1970. A proposta era que estudantes aprenderiam melhor quando as informações fossem apresentadas de uma forma muito específica. Assim, “aprendizes visuais” precisariam ver o conteúdo para aprender, enquanto “aprendizes auditivos” precisariam ouvi-lo.

Desde meados dos anos 2000, essa ideia passou a ser reconhecida como um mito, mas a crença em estilos de aprendizagem segue presente entre educadores.

Mesmo que as pessoas possam ter preferências sobre como acessar informações, não há evidências de que a aprendizagem piore quando o conteúdo não é oferecido no formato preferido. Pesquisas também mostram que, com frequência, a avaliação que professores fazem sobre o “estilo de aprendizagem” de um aluno não coincide com a preferência que o próprio estudante relata.

Na prática, portanto, decisões pedagógicas baseadas em “estilos de aprendizagem” presumidos podem estar equivocadas de partida.

Mito 2: “os estudantes são ‘do hemisfério esquerdo’ ou ‘do hemisfério direito’”

Outra crença duradoura é a de que certos traços de personalidade seriam predominantemente “do hemisfério direito” (intuitivo e criativo) ou “do hemisfério esquerdo” (analítico e lógico).

Há evidências de que algumas funções cerebrais são, em certa medida, mais lateralizadas. Por exemplo, a linguagem se concentra mais à esquerda, e a atenção, mais à direita. No entanto, não existe evidência de que sua personalidade ou sua aptidão derivem de modo particular do hemisfério esquerdo ou do direito.

O prejuízo desse mito aparece quando estudantes passam a acreditar que são “mais do hemisfério esquerdo do que do direito” e quando professores reforçam essa interpretação. A partir daí, jovens podem concluir que deveriam se limitar às humanidades ou, ao contrário, apenas à matemática e às ciências.

Isso pode impedir que um aluno explore diferentes trajetórias acadêmicas e profissionais. É verdade que alguns estudantes parecem florescer como artistas, outros como matemáticos e outros em ambas as áreas. Ainda assim, não deveríamos rotular alunos com base em um neuromito - o que pode afetar a autoconfiança e o potencial de cada um.

Kate E. Williams, Professora de Educação, Universidade da Costa do Sol

Este artigo foi republicado de A Conversa sob uma licença Commons Criativa. Leia o artigo original.


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