Pular para o conteúdo

Prevenção de AVC nas Américas: pressão alta e a rede HEARTS

Profissional de saúde mede pressão arterial de paciente em clínica com frutas e decoração ao fundo.

O maior fator de risco para AVC é a pressão alta. Entre os adultos das Américas que vivem com hipertensão, apenas cerca de um em cada três consegue mantê-la controlada.

Os medicamentos existem, e as evidências se acumulam há décadas; ainda assim, a maioria das pessoas sob risco de AVC não está sendo alcançada.

Uma revisão recente sobre prevenção de AVC em todo o hemisfério buscou explicar os motivos. A conclusão aponta menos para a falta de opções terapêuticas e mais para falhas na forma como o cuidado chega às pessoas.

Ligações com a pressão arterial

Em toda a América do Norte e a América do Sul, o AVC está entre as principais causas de morte e de incapacidade permanente - e o impacto segue aumentando.

Na região, profissionais de saúde registram mais de um milhão de novos casos de AVC por ano, e o problema vem aparecendo com mais frequência em adultos mais jovens, que antes pareciam fora dessa zona de risco.

Um grande estudo internacional atribuiu aproximadamente 90% do risco de AVC a dez fatores cotidianos.

No topo da lista está a pressão alta, ou hipertensão, seguida por colesterol elevado, diabetes, excesso de peso, sedentarismo e tabagismo.

Um artigo científico indicou que cerca de 80% dos AVCs poderiam ser evitados com a identificação e o tratamento precoces da pressão alta e de outros riscos.

A hipertensão, porém, é a mais difícil de enfrentar: costuma evoluir sem sintomas, atinge perto de quatro em cada dez adultos na região e fica controlada em apenas cerca de um em cada três desses casos.

Alcançando quem está em risco

A revisão foi conduzida por uma equipa liderada pela Dra. Sheila C.O. Martins, do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, Brasil. Martins também atua como presidente da World Stroke Organization.

A mensagem do grupo é direta: a ciência da prevenção do AVC, em grande medida, já está estabelecida; o fracasso ocorre na implementação.

Martins e os colegas descrevem uma divisão preocupante. As mortes por AVC caíram em boa parte da região entre 1990 e 2015, mas depois estagnaram - ou voltaram a subir - em vários países.

O conhecimento para reduzir esses números existe, porém a capacidade de levar as medidas a todos os locais onde são necessárias não acompanha. Essa distância aparece como desigualdade explícita.

No Haiti, as mortes por AVC ultrapassam 185 por 100,000 pessoas, enquanto no Canadá as taxas são muito mais baixas.

Isso acontece no mesmo hemisfério, mas revela probabilidades extremamente diferentes, determinadas sobretudo por quem consegue acesso a serviços de saúde e por quem tem condições de comprar os comprimidos.

A rede HEARTS

Um programa de saúde pública chamado HEARTS foi criado em parceria com agências de saúde internacionais e regionais.

Há anos, a iniciativa vem reorganizando a forma como as unidades de atenção primária lidam com pressão arterial e risco cardiovascular, e já está presente em 33 países.

Nas Américas, o HEARTS funciona hoje em cerca de 10,000 centros de atenção primária, e a maioria dos países participantes adota o mesmo protocolo de tratamento, passo a passo.

O objetivo é padronizar: uma enfermeira numa cidade pequena segue a mesma orientação básica que um especialista numa metrópole.

A próxima fase, HEARTS 2.0, inclui cuidados para doença renal e diabetes, além de fazer rastreio discreto de um batimento cardíaco irregular que pode formar coágulos e levá-los ao cérebro.

Evidências vindas da Colômbia

A evidência mais robusta de que essa estratégia funciona vem de um ensaio comunitário na Colômbia, que integrou um estudo em dois países.

Em vez de médicos, pesquisadores capacitaram agentes comunitários de saúde para localizar e tratar pessoas com pressão alta descontrolada, usando um aplicativo em tablet e orientações simples.

Os agentes distribuíram gratuitamente medicamentos para pressão arterial e colesterol e, em seguida, envolveram um familiar ou amigo para ajudar a manter o doente no percurso. O resultado foi expressivo.

No grupo atendido pelo programa, 69% estavam com a pressão controlada após um ano; no cuidado habitual, apenas 30% alcançaram esse resultado, segundo o ensaio.

A intervenção mais do que duplicou a taxa de controlo da pressão arterial com as mesmas unidades e os mesmos medicamentos - mas com outro modelo de entrega do cuidado.

O ensaio também reduziu a probabilidade estimada de doença cardíaca dos participantes ao longo da década seguinte. Foram medidas relativamente baratas, mas que geraram melhorias relevantes.

Quem fica para trás

Nas Américas, comunidades rurais, populações indígenas e afrodescendentes, além dos residentes mais pobres, suportam a maior carga de AVC.

Ao mesmo tempo, são os grupos com menor acesso a cuidados. O peso da doença acompanha de perto o mapa e a renda - e é nesse cenário que a telemedicina ganha valor especial.

A revisão destaca a telemedicina e ferramentas digitais como formas de ampliar o alcance de especialistas escassos e de orientar as equipas locais que sustentam o trabalho diário. Outras medidas são quase rotineiras.

Entre elas estão garantir comprimidos de pressão alta de tomada única diária (para aumentar a adesão), treinar enfermeiros para gerir doenças crónicas e ampliar a cobertura de seguros públicos, para que uma receita não seja um luxo.

As barreiras raramente são científicas; em geral, envolvem acesso, financiamento, cadeias de abastecimento e vontade política.

Reduzindo o risco

Esta revisão indica que as Américas já dispõem do conhecimento científico necessário para prevenir o AVC. A base de evidências está sólida.

A padronização do cuidado na atenção primária e o tratamento conduzido na comunidade podem elevar de forma acentuada o controlo da pressão arterial em sistemas de saúde muito diferentes. Se os governos colocarem isso em prática, a mudança pode ser concreta.

Mais pessoas poderão ser avaliadas na unidade de bairro, mais medicamentos baratos chegarão aos doentes certos, e menos famílias serão surpreendidas por um AVC evitável.

O que falta concluir é a execução, não a descoberta. Fechar a lacuna exige tratar a equidade como meta, e não como detalhe.

O essencial é direcionar as ferramentas mais fortes para quem foi ignorado por mais tempo. O plano já está delineado.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário