Corte o dedo e, em poucos dias, a pele se fecha. Quebre um osso e ele vai se consolidando aos poucos; o fígado, depois de uma cirurgia, ainda consegue recuperar uma parte de si. Já os rins quase nunca emplacam esse mesmo tipo de conserto.
Quando sofrem uma lesão séria, em vez de voltarem ao que eram, os rins tendem a cicatrizar. Um estudo novo aponta algo ainda mais incomum: o próprio tecido danificado pode estar, de propósito, segurando a reparação.
Por que os rins cicatrizam
Os rins filtram resíduos do sangue o tempo todo, sem pausa - e pagam o preço. A perda súbita de função é comum em pessoas internadas; uma revisão contabiliza mais de 13 million casos por ano.
Uma parte se recupera. Mas muita gente não, porque, quando o tecido renal é muito ferido, ele raramente se recompõe como a pele ou o fígado. No lugar das estruturas que funcionam, entra uma cicatriz rígida - que não filtra nada.
Isso há tempos irrita médicos. É possível controlar sintomas, tratar a pressão arterial e recorrer à diálise ou ao transplante quando o quadro fica grave - mas ainda não existe algo que, de fato, faça um rim lesionado se regenerar.
Encontrando o “freio”
Essa questão atraiu Arjun Deb, cientista cardiovascular e professor de medicina na UCLA. Há anos, o laboratório dele investiga por que órgãos feridos não se reparam direito, começando pelo coração.
O grupo acabou chegando à ENPP1 - uma proteína que o tecido lesionado passa a produzir em grande quantidade. No coração, a equipa mostrou que ela desencadeava mudanças químicas que tiravam das células próximas a energia necessária para se dividir.
A hipótese era que o rim repetisse a mesma estratégia. Células saudáveis na borda da lesão tentam multiplicar-se para fechar o “buraco”, mas o centro machucado parece mantê-las paralisadas. Como se a própria lesão trouxesse um travamento embutido.
Analisando rins humanos
Para verificar se isso também aparecia em pessoas, a equipa comparou amostras renais de 44 pacientes com tecido saudável. Nos rins mais doentes, a ENPP1 estava em alta - e, quanto maior a quantidade, pior era a doença.
O sinal era difícil de ignorar. Doença renal crónica não é rara: uma análise recente estimou o total global em cerca de 800 million adultos, e a condição está entre as principais causas de morte no mundo.
Ver a ENPP1 concentrada justamente onde o dano era mais grave deu ao grupo um alvo direto. Se a proteína estivesse “emperrando” a equipa de reparo do rim, então removê-la deveria permitir que a cicatrização desse lugar à recuperação. Esse virou o passo seguinte.
Desligando o gene
Primeiro, eles criaram camundongos incapazes de produzir ENPP1 e, em seguida, causaram lesão renal com uma dieta tóxica e medicamentos nocivos. Camundongos normais receberam o mesmo protocolo.
Em todos os animais, exames de sangue mostraram os marcadores de falência renal a subir rapidamente. Passadas four weeks, os dois grupos já seguiam rumos diferentes.
Os camundongos normais continuaram numa faixa perigosa. Já os que não tinham a proteína viram esses indicadores cair de volta em direção ao normal - um sinal de que havia reparação.
Ao retirar a ENPP1, um rim que deveria entrar numa espiral de piora acabou a encontrar caminho de retorno. A proteína não estava apenas “junto” da lesão; ela fazia parte do motivo pelo qual o dano persistia.
Reparando rins lesionados
Desligar um gene serve como experimento limpo, não como terapia. Por isso, a equipa recorreu a um fármaco que já tinha desenvolvido.
O AD-NP1 é um anticorpo produzido em laboratório, projetado para se ligar exclusivamente à ENPP1 humana. A promessa era reproduzir o efeito do desligamento do gene, mas sem mexer em qualquer DNA.
Eles lesionaram os rins de camundongos comuns e depois administraram o anticorpo. Seven days depois, os animais tratados filtravam o sangue melhor do que os não tratados. Nos rins, havia menos cicatrizes e mais células a reconstruir o tecido.
O que fez o resultado chamar atenção foi a rapidez. Células que estavam “estagnadas” pareceram voltar a funcionar - possivelmente porque a energia antes sufocada pela ENPP1 foi restabelecida. Ainda assim, o mecanismo completo continua a precisar de esclarecimento.
Até aqui, ninguém tinha demonstrado que um único anticorpo conseguiria desviar um rim danificado do caminho da cicatriz e puxá-lo na direção da reparação.
Ecos no coração
Nada disso surgiu do nada. Two years earlier, o laboratório de Deb já havia descrito, num artigo, que o mesmo anticorpo resgatava músculo cardíaco em camundongos após um enfarte, reativando células que a lesão tinha desligado.
A coincidência foi o que mais empolgou a equipa. “Descobrimos que os mesmos mecanismos que observámos no coração também eram aplicáveis no rim”, disse Deb.
Ao que tudo indica, dois órgãos bem diferentes acionam o mesmo programa autossabotador depois de uma lesão.
Antes de qualquer fármaco chegar a pessoas, ele precisa passar por verificações de segurança - e o AD-NP1 já começou esse processo. Num estudo controlado de dose, macacos toleraram bem o anticorpo, sem toxicidade mesmo com o aumento das doses.
O que vem a seguir
O AD-NP1 já recebeu, em last September, autorização da FDA para um primeiro ensaio em humanos voltado ao coração - do tipo inicial, que testa segurança e dose, e não se funciona. Agora, Deb planeia buscar aprovação semelhante para a indicação renal.
Para pacientes, o peso disso é evidente. Um rim gravemente lesionado costuma significar uma descida lenta rumo à diálise ou à lista de transplante. Um medicamento que ajudasse o órgão a reconstruir a própria estrutura seria uma medicina de outra categoria.
O estudo deixa claro que um rim ferido não está apenas a falhar em se curar. Uma proteína produzida pelo próprio órgão atua ativamente para travar a reparação - e esse freio pode ser solto. A próxima pergunta é se o mesmo acontece em pessoas.
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